Lançamentos de games em NOVEMBRO de 2026 – Calendário VOXL
Além do aguardado GTA 6, novembro traz remake de Ocarina of Time e mais de 30 jogos. Confira as estreias do mês. Crédito: Voxl
Como grande admirador de soulslikes, tendo jogado praticamente tudo que saiu relacionado ao gênero nos últimos anos, posso dizer com certa propriedade que tem sido cada vez mais difícil surpreender o jogador. Assim como acontece com qualquer estilo de jogo que é exaustivamente explorado, a fórmula da FromSoftware parece já ter sido espremida de todos os ângulos possíveis.
Se antes o gênero era o exemplo a ser seguido por produtoras que almejam o sucesso garantido, hoje já tem gente que enxerga influências de Demon’s Souls, Dark Souls e Bloodborne como algo negativo. Não pela dificuldade, tampouco pelo level design complexo, que ainda é o ponto forte desse jeito de fazer jogo, mas sim por ter caído na mesmice.
Valor Mortis já está disponível no PC e consoles. Foto: Victor Alcaide Teixeira
Desenvolvido pela One More Level, conhecida por Ghostrunner, um jogo de ação em primeira pessoa inteiramente construído em torno de parkour, Valor Mortis preserva muito do DNA de seu irmão mais novo. Com acrobacias, desafios de locomoção e muito combate visceral, o novo título da desenvolvedora polonesa tem identidade suficiente para se diferenciar no mar de soulslikes.
História morna, é verdade, mas a temática é convincente o bastante
A temática do século XIX, por si só, já é um atrativo e tanto para se aventurar em Valor Mortis. Você controla William, um soldado da Grande Armée, que lutou ao lado de Napoleão e viu o exército do qual fez parte perecer no campo de batalha. O protagonista, então, renasce com poderes sobrenaturais após ter sido abatido, mas vê o mundo à sua volta corrompido pela Praga Carmesim.
A partir daí, William embarca em uma jornada pela era napoleônica para tentar descobrir a origem da corrupção e, naturalmente, uma forma de contê-la. Ainda que seja mais um dos inúmeros jogos a abordar o conceito de doença ou praga dentro do gênero, o game procura se diferenciar na ambientação europeia e, sobretudo, no período histórico que representa.
Valor Mortis já está disponível no PC e consoles. Foto: Victor Alcaide Teixeira
Para quem espera um desenvolvimento narrativo de jogo single-player, bem, não é aqui que você vai encontrar. William vivencia flashbacks da guerra e carrega uma versão de Napoleão dentro da própria mente. Ele conversa “sozinho” com o antigo imperador em momentos decisivos, mas nunca com uma profundidade que nos faça querer prosseguir unicamente pela trama.
Essa superficialidade com a qual a história é apresentada, no entanto, nem chega a ser um problema para mim. É verdade que os jogos da FromSoftware escondem universos bastante aprofundados por baixo da superfície, mas, no geral, é o level design que sempre tem algo a dizer, e não os documentos que encontramos pelo caminho ou os diálogos. Essa mesma lógica se aplica a Valor Mortis.
Ambientes naturais, como florestas, vales europeus e campos agrícolas, se misturam às fortalezas e aos monumentos religiosos, criando um contraste entre o charme das construções góticas da época e os cenários opressivos, visivelmente impactados pela praga que os assola. Tudo em uma qualidade gráfica absurda.
Valor Mortis já está disponível no PC e consoles. Foto: Victor Alcaide Teixeira
A densidade da vegetação em áreas abertas, a iluminação que empresta fotorrealismo a todas as composições e a estabilidade de desempenho mesmo com um visual exigente: Valor Mortis é simplesmente um jogo de menor escopo com a “lataria” de um Triple A. O nível de detalhamento é impressionante, sobretudo para um game menor, e deve fazer muita produtora grande passar vergonha.
Exploração vertical e requintes de metroidvania
A linearidade excessiva de algumas áreas, em especial no início, pode acabar incomodando quem gosta de se sentir perdido e deseja sair explorando assim que assume o controle do personagem. O que eu te digo é: tenha paciência. É só uma questão de tempo até que os ambientes se abram e mostrem seu potencial: os atalhos milagrosos para as fogueiras, aqui chamadas de lamparinas, também estão aqui.
Aliás, Valor Mortis não deixa passar nenhum item da lista do que faz um verdadeiro soulslike: da estrutura do jogo em si, inclusive com a dificuldade punitiva e a ausência de mapa, à progressão por níveis. Seu diferencial, como comentei brevemente no início desta análise, reside nos elementos acrobáticos. Para você ter uma noção da intensidade do parkour: tem até corrida na parede.
Valor Mortis já está disponível no PC e consoles. Foto: Victor Alcaide Teixeira
À medida que avança, William descobre novos poderes, o que inclui uma magia ígnea para derreter objetos, além de um gancho, cujo propósito é tornar a navegação mais vertical. É justamente quando o jogo flerta com o gênero metroidvania, no sentido de incentivar o jogador a revisitar áreas para desbloquear novos caminhos, que ele mostra seus melhores truques.
Controlar William diante de obstáculos de plataforma é algo que me remeteu aos bons tempos de Mirror’s Edge. Os movimentos do personagem são responsivos, transmitem a mesma fluidez de sua inspiração e, principalmente, não são prejudicados pela perspectiva em primeira pessoa. O simples ato de andar por esse mundo é satisfatório.
Combate visceral e sanguinolento
O combate, por sua vez, é muito bom e mostra que soulslikes podem funcionar em primeira pessoa, por incrível que pareça. Admito que eu estava relutante, até porque tenho minhas questões com cinetose e fico enjoado com certa facilidade diante de movimentos bruscos da câmera, mas as mecânicas de luta, seja no corpo a corpo, seja nos encontros à distância, são refinadíssimas.
William carrega uma arma branca em uma das mãos, enquanto a outra fica ocupada com uma pistola ou algum tipo de magia. A dinâmica ofensiva e defensiva gira toda em torno do parry. Aparar vai ser sempre a melhor opção, uma vez que, quando executado no tempo certo, o movimento pode quebrar a postura do adversário e deixá-lo vulnerável a uma finalização.
Valor Mortis já está disponível no PC e consoles. Foto: Victor Alcaide Teixeira
As finalizações, inclusive, são o que Valor Mortis tem de melhor, com animações focadas puramente na visceralidade e na sanguinolência. Em uma delas, por exemplo, nosso personagem agarra o inimigo pelo manto imperial e coloca a pistola em sua boca para disparar um tiro que tritura os miolos. Em outra, William desmembra partes do corpo dos infectados como se fossem meros filezinhos de carne.
A esquiva, por outro lado, apesar de ser exigida nos encontros contra chefes, não é lá aquelas coisas, sendo a maior limitação do combate. Como você não tem uma visão ampla de todos os elementos à sua volta e, principalmente, nem sempre consegue ter plena noção do espaço em que o personagem está pisando, desviar com precisão passa a ser um desafio e, acima de tudo, uma ação um tanto quanto arriscada (e destrambelhada).
Vale a pena?
Valor Mortis já está disponível no PC e consoles. Foto: Victor Alcaide Teixeira
Valor Mortis, para a surpresa de muitos (inclusive a minha), não se contenta em ser só um soulslike em primeira pessoa com outra roupagem. O jogo possui uma excelente base, preservando o DNA dos movimentos acrobáticos pelos quais a One More Level é conhecida, e entrega um combate extremamente satisfatório, apesar da esquiva imprecisa.
A ambientação do século XIX, pouco explorada nos videogames, também ajuda a tornar Valor Mortis ainda mais singular. O mais impressionante de tudo é saber que um jogo com tanta ambição foi concebido com tamanho esmero por uma desenvolvedora que nunca ganhou os holofotes que merecia, o que deve mudar a partir de agora.
Nota: 90
Prós
- Temática e ambientação do século XIX, pouco exploradas nos videogames;
- Parkour, desafios de plataforma e elementos de metroidvania;
- É um soulslike tradicional, mas mais original do que parece;
- Combate em primeira pessoa responsivo e visceral;
- Textos em português do Brasil.
Contras
- A história joga seguro e permanece superficial;
- Esquivar pode ser um problema.
Uma cópia de Valor Mortis foi gentilmente cedida pela One More Level para fins de análise em um PlayStation 5 Pro. O jogo está disponível para PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC.